sábado, 10 de setembro de 2016

a gota

trago de verdades insanas
soma de metades inteiras
junção de migalhas amanhecidas
quem come farelo tem asas, e voa
se vive a espreita do amor não quer inteiro
se vivo a espera do amor sou tolo
sacode o mundo inteiro por dentro
apruma o peito e parte o tudo
e vai ligeiro a rua e corre e grita
e morre na avenida
e corre na estrada
em busca da vida que existe lá não sei onde
pro lado contrário da história que morreu há pouco
e pede um porto quando cansar de correr
e grita porque cansou de escutar
e chora quando cansar de conter
o rio que corre pro amar

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

desencontro a cores


eu não sei quem você é
não sei de onde veio
nem pra onde vai
...
por vários anos cruzei suas cores no meu quintal
e não pisei no futuro
acho que a vida avisa os passos
.
passado tempo me vi de frente
vento girando no compasso
.
ser gente consiste em respeitar
quando cruzo caminhos
peço licença a encruzilhada
com um pé atrás e o outro no chão
.
fico onde sou bem quista
atravesso a estrada quando olho envolta
a travessia é justa a intenção
.
se atravessei foi porque não te vi no caminho
no espaço
nem naquele coração
.
não havia ninguém além de nós
marcou meu peito marquei o canto
revirados lençóis
.
taças e quinquilharias amanhecidas
esquecidas
ansiedade precedia a colisão
.
no sol de carnaval três batidas
sincronizadas
a porta aberta arritmia
bateria na calçada
.
enquanto muito de mim lá dentro
nada de mim em mim lá fora
eu parti vazio a interrogação
.
seu peito chorava num abraço
meu corpo vagava oco
desencontro intenso do encontro a intenção
.
quarta cinza de silêncio
respeitando o sentimento
entendendo a invasão
.
virou as costas esperando afago
eu de frente esperando o abraço
peito aberto abraçou a confusão
.
e lutei por ela
chorei com ela
enquanto contando os cacos você esperava reação
.
finca o pé no mundo
ando pra o lado contrário ao seu
mas os ponteiros seguem o mesmo caminho
se nos desencontrarmos de novo
seja de verdade
e recolha o abraço avesso que me deu

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

ser inteiro

aparta o peito e pára
aporta o veleiro no meu porto
sou porto seguro
segura no amor
não bota ancora na água
se teu desejo é navegar
pede ao vento o voou
na proa do seu barco a vela
apronto um canto quente
seco seu pranto em meio ao mar
serei no seu barco passageiro
mas não será como fevereiro
desse barco, amor, eu não vou saltar

domingo, 31 de julho de 2016

decoração de fragmentos

quantas amoras caem do pé e se vão?
recorto o tempo e dobro
macramé decoração
pra ver se enxerga o espaço tempo em branco
a olhar de frente o vazio do papel peito
vê se encontra todos os nós
pensando em entender
entendendo o passar
mas no momento do sentir
só resta receber e respirar
pra ver se vai
pra ver se vem
pra ver se tem silêncio
vento em música assovio
que me embalam os vôos
as notas doces são gentis
acarinham a pele amor
enquanto plano aqueço
quanto ao plano esqueço
raciocínio se esvai
eu só a sentir
deixo o parto parir um começo
de repente a gente aprende com o novo
fecha os olhos
sente o vento de mãos dadas com o sol
deita no colo da terra que abraça a grama verde
e deixa a alma aterrissar
deixa que vá
deixa o corpo em vôo
deixa pra lá
o que já deixou






sábado, 30 de julho de 2016

eu me calei
eu falei baixo
eu falei brando
eu disse
eu gritei
e você não ouviu meu grito de socorro
a cada esquina eu morro
a cada esquina chora Chica, Maria, chora Rita
tentei explicar pra você, rapaz
que de boa intenção o inferno tá cheio
minha feminilidade não te refere
o meu nú não te pertence
o meu corpo não te fere
o meu sexo não existe pra te servir
eu me mostro pra mim mesma
o seu "elogio" causa uma imensidão de atos
feito efeito dominó e cai sobre mim, sobre nós
sobre todas nós a cada passo
a rua também me pertence
eu sinto o que você sente
sou igual
entendeu não?
não trisca, não rela, não me Toque!
a menos que eu permita
a minha alma grita toda vez que uma mulher é violada
o feminismo não te odeia
o feminismo não te quer mal
o feminismo quer que morra toda essa cultura patriarcal
eu vivi até pouco numa prisão
com tantas mulheres aprendi que não preciso passar por humilhação
pelo que sou
pelo que sei
pela minha cor
pelo meu sexo
sexo frágil só na fragilidade da sua visão
ignora o movimento que eu faço no mundo
eu não te ameaço eu somo a tudo
e quando você some, sou eu que crio o novo mundo
com um pedaço do mundo dentro de mim
ainda sim consigo o sustento com suor do trabalho
a dor no pé na barriga
a barriga pesando as costas
enquanto nos olhos lágrimas
os seios jorrando leite
e eu limpando a sujeira que você deixou
enquanto você vai viver o mundo
eu crio um mundo inteiro dentro de mim
você não reconhece
a sociedade não reconhece
hoje reconheço a força que existe aqui
tenho uma legião de mulheres junto a mim
eu as reconheço, elas me reconhecem, nós reconhecemos na nossa luta
que há tantas décadas, apenas acabou de começar
.
minha eterna gratidão a todas as mulheres que me fazem sentir
que eu nunca estou sozinha





terça-feira, 19 de julho de 2016

quando o mundo invade a vida

já parti mil corações
já tive meu coração partido em mil pedaços
carrego um mundo inteiro dentro de mim
preciso deixar bagagens no caminho
mala pesada me faz caminhar a passos lentos
meus pés doem
o peito pesa ao vento leve que me toca
preciso içar a vela que me leva a navegar
só o chão já não me basta
minhas asas estão cansadas
recorro ao mar
as ondas que me poupam o corpo
a água que liberta meu espirito
o sol que aquece o meu cavalo
a passos largos caminho sobre o mar
vento leve sopra o furacão que me habita
dentro
tempo ajuste a minha mente ao presente
eu quero descansar o meu sentir
o mundo as vezes me dói
não quero mais minhas vestes cheias de poeiras passadas
vistas
tocadas
toco mil vidas com meus olhos
sinto mil mentes em meus sonhos
recebo respostas sem nem mesmo questionar
pára um pouco os ponteiros
eu que sempre fui ligeiro
hoje quero descansar
sigo cochichando ao pé do ouvido
do meu peito explodido
que precisa respirar
sem fumaça tóxica
sem informações excessivas
sem poluição sonora
tanta intensidade
sensitividade
intensa-idade
a sabedoria vai descansar
os ouvidos
o peito
o passo
o nó desatar
desabafar
desconectar
desacelerar
descriminar
em tudo pede ar
então respira
e deita
mergulha
levanta com fé e sonha
com um dia novo ao desafogar


sexta-feira, 24 de junho de 2016